quinta-feira, 22 de março de 2018

OKINAWA - Uma ponte para o mundo

Lançado há 25 anos, um livro brasileiro abordou a História e as peculiaridades do paraíso tropical do Japão.
Um abrangente estudo sobre uma região
bastante diferenciada do Japão.
Na parte sul do arquipélago japonês, existe o arquipélago de Ryukyu, formado por 169 ilhas. É lá que fica a província de Okinawa, a última a ser anexada ao território do Japão contemporâneo. 

Outrora um reino independente até ser conquistado no século XV, Okinawa possui diversas características diferentes do resto do Japão, com grande riqueza histórica e de tradições. Esse é o tema do livro Okinawa - Uma ponte para o mundo, lançado em 1993 pelo escritor e tradutor José Yamashiro, um dos primeiros jornalistas descendentes de japoneses a ganhar destaque na imprensa brasileira. Sua obra tem enorme relevância, por revelar muito sobre a província japonesa que mais enviou imigrantes ao Brasil, há mais de um século.


Fisicamente, o povo de Okinawa é mais moreno que a maior parte dos japoneses, além de outras particularidades visíveis, mas é na cultura que existem as maiores diferenças. O idioma original, o uchinaguchi, apesar de derivado do japonês primitivo, tem muitas diferenças e foi sendo substituído pela língua japonesa oficial, sendo hoje pouco falado. Sua culinária, folclore e religião também são acentuadamente mais diferenciados do resto do país, dentre todas os povos que constituem a populosa nação japonesa. 
Okinawa tem algumas das mais belas paisagens do Japão.
A obra descreve descobertas arqueológicas sobre a pré-história da região de Okinawa e atesta que seus habitantes tinham contato com o Japão já no século VII. Formada por numerosas ilhas, Okinawa se situa entre a China, a Coréia do Sul e o restante do Japão, tendo sido unificado como reino independente em 1429. 

Durante o período das guerras feudais (o chamado "sengoku-jidai") iniciado em 1457, Okinawa foi invadida pelo clã Satsuma, tendo sido anexada ao território que seria posteriormente unificado como o Japão contemporâneo. O tratamento era o de um território conquistado, não exatamente uma província do país, tendo permanecido assim por muito tempo. 


Durante a Segunda Guerra Mundial, Okinawa foi uma das regiões mais castigadas por sua posição estratégica. Tendo enviado seus jovens para defender a capital do Japão, suas mulheres, idosos, adolescentes e crianças foram chacinados por tropas americanas que lá entraram. Os relatos da época são terríveis e criaram muitos ressentimentos que custaram a cicatrizar. 
Dança tradicional de Okinawa.
Povo de tradição pacífica, Okinawa ainda teve de conviver com a ocupação militar americana no pós-guerra, o que criou muita revolta entre seus moradores. Muitos traumas ficaram devido a tais acontecimentos, mas o povo de Okinawa sempre se manteve firme em suas convicções pacifistas, no culto aos seus antepassados, na preservação de suas artes e na conservação de um verdadeiro paraíso tropical. 

O livro avança por séculos de registros históricos e arqueológicos, oferecendo uma ampla visão sobre a outrora nação independente que acrescentou muitos elementos ao conjunto da cultura e da sociedade japonesa. 

O jornalista José Yamashiro, nascido em 20 de abril de 1913 em Santos/SP, era filho de imigrantes japoneses que se fixaram no Brasil nos primeiros anos da imigração. Teve uma carreira bastante extensa e produtiva, passando por diversos órgãos de imprensa e publicou traduções e livros de autoria própria. 

Dentre suas obras de destaque, vale citar os volumes Pequena História do Japão (1950), História dos Samurais (1982) e o autobiográfico Trajetória de Duas Vidas (1996), entre outros, sempre escrevendo com seu estilo objetivo e informativo. Faleceu em 13 de agosto de 2005, aos 92 anos. 

Terra natal da maioria dos primeiros imigrantes japoneses no Brasil, Okinawa não é normalmente percebida como uma cultura diferenciada do resto do Japão. O livro de José Yamashiro, com grande habilidade, começou a esclarecer a leitores brasileiros sobre essas peculiaridades, divulgando a cultura rica de um povo que, a despeito de uma história sofrida, cultiva a alegria e a hospitalidade como valores essenciais.

OKINAWA - Uma ponte para o mundo


Autor: José Yamashiro
Prefácio: Benedicto Ferri de Barros
Formato:
 14 x 21 cm, com 280 páginas
Lançamento: Cultura Editores Associados (1993)

(O livro encontra-se esgotado, sem previsão de republicação, mas talvez possa ser encontrado em sebos ou bibliotecas.)

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Nota do blog: José Yamashiro foi meu tio-avô, sendo irmão de minha avó paterna. Infelizmente, nunca tivemos muito contato e conversamos poucas vezes. A lembrança que tenho dele é a de um homem bastante sereno, com uma grande capacidade realizadora. 



::: E X T R A S :::

1) "Shima utá", ou "Canção da Ilha" é a mais famosa música japonesa que homenageia Okinawa. Foi lançada em 1992 pelo grupo The Boom e utiliza a sonoridade característica do sanshin, instrumento okinawano de três cordas que precede o shamisen japonês.


- Confira aqui a história da canção e veja algumas de suas muitas - e belíssimas - versões (Blog Sushi POP)

2) "Nada sousou" ou "Lágrimas escorrendo" é a mais famosa canção pop originária de Okinawa. O título resgata o termo okinawano "nada" ("lágrima"), que em japonês é "namidá". Canção original do grupo BEGIN, sua mais famosa intérprete é Rimi Natsukawa, que aqui aparece cantando e tocando o sanshin. 



- Confira aqui a história da canção. (Blog Sushi POP)

2 comentários:

Stefano Barbosa disse...

O povo de Okinawa não sofreu nas mãos do militarismo japonês ??
Houve casos de jovens okinawanos fazendo objeção de consciência ?

Alexandre Nagado disse...

Olá, Stefano.

Sim, sofreram e o processo de ensino militarista anterior à Segunda Guerra acabou influenciando todo o povo.

Já sobre casos de recusa, não tenho conhecimento.

Abraço!