domingo, 14 de janeiro de 2018

Hagakure – O Livro do Samurai

Um livro com ensinamentos
de um antigo samurai
tornou-se um clássico internacional.
Símbolo de coragem, destreza e determinação, o samurai é uma das imagens mais fortes associadas ao Japão antigo. Desde o sucesso mundial do clássico Os Sete Samurais (de 1954), do diretor Akira Kurosawa, até ícones pop modernos como Samurai X, Vagabond, Samurai Jack e tantos outros, o conceito do guerreiro implacável, honrado e armado com uma espada sempre inspirou inúmeras narrativas. 

Dominando o Japão entre 1185 e 1868, a elite guerreira dos samurais vivia, matava e morria para defender a segurança e a honra de seus mestres e senhores feudais. No entanto, a compreensão do espírito desses espadachins sempre foi uma incógnita e motivo das mais equivocadas interpretações.

Para dar uma visão geral sobre como era o ponto de vista de um bom representante dessa casta guerreira, a Conrad Editora lançou o livro Hagakure – O livro do samurai.

O título é apresentado ao público como sendo um “manual de sobrevivência que pode ser interpretado à luz dos desafios empresariais do mundo moderno”. A frase tem sua razão de ser, pois boa parte do livro ensina posturas perante dificuldades e trata de perseverança, dando vários exemplos. Mas pode causar arrepios em algumas pessoas imaginar alguém dizendo que o Hagakure (leia como “ragácure”) é seu modelo absoluto de valores, pois a rigidez do samurai é tanto inflexível e objetiva quanto impiedosa e cruel em vários casos.

Os Sete Samurais (1954), filme de
Akira Kurosawa, ajudou a moldar a imagem
dos samurais no ocidente.
O autor, Yamamoto Tsunetomo, que viveu entre 1659 e 1719, ditou o conteúdo a um jovem samurai chamado Tashiro Tsuramoto. Após a morte de seu mestre e tendo sido proibido de cometer suicídio ritual para acompanhá-lo no além, Tsunetomo (este era seu primeiro nome) se aposentou e se tornou monge no ano de 1700. Para homenagear seu mestre, ele passou adiante seus ensinamentos, histórias e ideais a Tashiro e o resultado foi o Hagakure, cujo título pode ser traduzido por “oculto pelas folhas” ou “folhas escondidas”. Aliás vale dizer que muito da filosofia conhecida hoje dos samurais vem de escritos feitos em tempos de paz, quando outrora guerreiros se dedicavam à pintura, caligrafia e poesia. Daí a romantização forte que marca a imagem dos samurais como modelos de sabedoria. Foi lançado no Japão em 1979, pela Editora Kodansha

A edição brasileira, traduzida do inglês, é uma seleção de trechos interessantes compilados pelo tradutor William Scott Wilson. O texto original possui mais de 13.000 tópicos, reduzidos aqui para cerca de 300. O livro está dividido em capítulos como o original, pulando o quinto capítulo (de um total de 11, mais um texto de encerramento) por este tratar de datas e fatos de pouca relevância. Ainda, um glossário explica nomes, lugares e termos referidos na obra.

O livro tem um pouco de tudo o que se relacionava à vida dos samurais, com muitas histórias interessantes. Algumas passagens mostram até onde ia a submissão de um samurai (sempre disposto a morrer pelo mestre) e outras ainda trazem uma simplicidade e sapiência desconcertantes e atuais. Há, logicamente, comentários bastante machistas (afinal, foi escrito no Japão de séculos atrás), como um trecho que diz que “A mulher que for criada de maneira rígida e experimentar o sofrimento em seu próprio lar, não terá aborrecimentos quando se casar.”

Diversos trechos relatam detalhes da vida cotidiana, aspectos sombrios do treinamento de um samurai (como saber decapitar bem aos 15 anos) e fatos acontecidos com Yamamoto, com pessoas próximas ou que viveram em tempos anteriores e cujas vidas ele tomou conhecimento. 
O livro foi publicado em vários países,
sendo um clássico entre aqueles que
buscam guias de auto-ajuda para o
mundo corporativo. 
O resultado é um amplo painel histórico e social sobre o mundo em que ele viveu, com passagens cruéis sobre o desapego à vida que deveria ter um bom samurai, capaz de matar o próprio pai ou filho com tranquilidade e coração sereno por questões de honra. Os ensinamentos do velho samurai também envolvem muito respeito, compaixão, solidariedade e gentileza com o próximo, daí seu apelo a tantos entusiastas de auto-ajuda por seus textos.

Todos esses elementos citados - alguns contraditórios - se misturam em Hagakure, mas é exatamente isso o que torna a obra uma leitura singular. Após a compreensão do contexto no prefácio e introdução, ela pode até ser lida de modo aleatório, abrindo-se em qualquer trecho, como num livro de citações ou pequenas crônicas.

Item obrigatório para interessados em cultura japonesa ou para fãs dos personagens citados no começo deste texto, Hagakure é uma preciosa incursão no honrado, violento e desconhecido mundo dos samurais.

Trechos do livro:

Havia um homem que era muito esperto, mas ele sempre enxergou apenas os pontos negativos de suas tarefas. Dessa maneira, tornou-se uma pessoa inútil.” (pág. 45)

A caligrafia adequada é resultado de muita atenção e prática mas, presa a isso, a escrita não fluirá e terá um ritmo arrastado. Você deve ir além e fugir da norma. Esse princípio se aplica a todas as coisas.” (pág. 59)

Seja fiel ao pensamento do momento e evite distrações. Em vez de se esforçar para dar conta de tudo, concentre-se apenas no que está fazendo. Procure privilegiar um pensamento de cada vez.” (pág. 92)

Hagakure – O livro do samurai

Autor: Tsunetomo Yamamoto

Organização: William Scott Wilson
Tradução para o inglês: William Scott Wilson
Tradução para o português: Sérgio Codespoti
Formato: 11,5 x 18 cm, com 238 páginas

Lançamento: Conrad Editora (2004)

* Resenha publicada originalmente no portal Omelete, em 2006.

::: EXTRAS - SAMURAIS POP :::

Indico aqui a leitura de resenhas sobre mangás (quadrinhos japoneses) que lidam com o tema samurai, diretamente de meu outro blog, o Sushi POP

Lobo Solitário, um dos maiores
clássicos japoneses a abordar o violento
mundo dos samurais.
Lobo Solitário - O mais importante mangá sobre samurais já lançado, teve sua versão para série de TV exibida no SBT na época em que era TVS, como O Samurai Fugitivo.

Vagabond - Versão em quadrinhos sobre a vida do lendário espadachim Miyamoto Musashi

Novo Lobo Solitário - Continuação oficial, contando as aventuras do pequeno Daigoro.

Especial Rurouni Kenshin - Versão do autor - Reformulação da história do mangá Samurai X, feita pelo autor na ocasião da versão para cinema. 

- Samurai 7 - Versão em quadrinhos da animação futurista baseada no filme Os Sete Samurais.

6 comentários:

Adelmo Veloso disse...

Excelente dica! Apesar de antigo, muitos pensamentos se mostram bastante atuais! Essa aí de manter o foco no pensamento do momento é meu ponto fraco.
Resumindo a juventude de hoje: "palavras machucam" - ah, vá!

Stefano Barbosa disse...

Como funcionava a polícia e exército na era dos samurais ??
Você sabe de + detalhes dos samurais quando rechaçaram os mongóis ?
ou a invasão da Coreia em 1598?

Alexandre Nagado disse...

Tem muita coisa legal no Hagakure, mas é bom sempre ver o contexto. Há uma passagem que elogia a determinação de samurais que apanharam em uma briga de bar. Indo contra tudo, eles cumpriram sua vingança, matando quem bateu neles. Não é algo que eu aprove, pois era briga de bar, motivo fútil pra tirar vidas. Por isso eu considero mais um documento histórico do que um conjunto de normas para a vida. Mas tem muita filosofia de vida interessante também.

Valeu! Grande abraço!

Alexandre Nagado disse...

Oi Stefano.

Os samurais eram soldados, portanto, militares. Em alguns feudos, mantinham a ordem como força policial.

Sobre a invasão da Coréia, acho que se refere à chamada Guerra Imjin, que envolveu também a China e terminou em 1598, com a expulsão dos japoneses.

Sobre a invasão dos mongóis, tem um verbete na Wikipedia com alguns dados e ilustrações bem legais. Infelizmente, não saberia dizer sobre a participação de samurais nas batalhas.

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Invasões_mongóis_do_Japão

Isso me lembra que meu falecido tio-avô José Yamashiro escreveu um livro sobre a história dos samurais muitos anos atrás. Lá talvez haja algo sobre isso. Preciso procurar.

Espero ter ajudado.
Abraço!

Stefano Barbosa disse...

Sobre a invasão mongol. Napoleão lembrava eles... pois era forte em terra...mas não no mar. A invasão de Napoleão à Rússia lembra 1 pouco a invasão de Khan ao Japão. Pois o tempo ajudou o invadidos... houve sabotagem contra os invasores. (marinheiros chineses e coreanos se rebelaram e até sabotaram os navios de Khan; no caso napoleônico... soldados não-franceses* desertaram e passaram informações vitais aos russos.)
* Napoleão convocou a força milhares de homens de países ocupados pra invadir a Rússia.a grosso modo.. foi 1 legião estrangeira embutida dentro DAS FORÇAS FRANCESAS)


" Desta forma os Mongóis desistiram de vez em tentar tomar o controle do arquipélago japonês, que ganhou notoriedade por ser, junto com o Vietnã, um dos únicos impérios do Extremo Oriente a resistir ao avanço mongol."

Curioso é que o Vietnam tem tradição milenar de resistir aos invasores.

anderson disse...

Eu já lia sobre esse lado sombrio dos samurais,por isso acho que Kenshin é mais o "Capitão América" do Japão do que um samurai,mas ainda chamo o desenho de Samurai X pelos mesmos motivos que chamo Sailor Moon de Serena.